Kosovo, Tibete e Cova da Moura
E aqui está a independência do Kosovo!
Cabe perguntar se faz algum sentido esta independência. Independentemente da questão jurídica, do ponto de vista da justiça, será que assiste alguma razão aos que agora unilateralmente (mas obviamente escudados na conivência tácita dos EUA e governos da UE) declaram a secessão da Sérvia. Têm direito à independência os albaneses do Kosovo?
Podemos falar, naturalmente na estrutura demográfico-étnica da região: há 90% de Albaneses para 10% de outras etnias. Mas isso levanta logo duas questões: primeiro, como é que se atingiu esse desequilíbrio populacional; segundo, se esse for o critério, e se fosse aplicado universalmente, haveria uma explosão de micro-estados por todo o lado, no seio de estados nações de formação bem antiga.
Quanto à primeira questão, há que sublinhar apenas alguns aspectos históricos. Ao longo do século XIX e até ao início do século XX a relação demográfica na região não tinha esta estrutura desequilibrada. A alteração tornou-se particularmente notória com a limpeza étnica que ocorreu no período da segunda guerra mundial, quando albaneses de simpatia fascista, auxiliados e sob a cobertura da itália de Mussolini, afugentaram muitos sérvios da região- Quando se constituiu a República Federal da Jugoslávia, impediu-se ou dificultou-se, pelo menos, o retorno dos sérvios à região, no intuito, compreensível, de evitar causar tensões étnicas e regionais que pudessem ameaçar o novo estado dos "eslavos do sul", cuja força residia na união fraternal, em oposição aos antigos donos imperialistas. Pela primeira vez, os povos desta região não eram meras marionetas nos jogos entre impérios (como haviam sido do império Austro-húngaro, otomano e russo), mas tinham uma voz própria, autónoma, no mapa-mundi. Assim, Tito buscou atenuar tensões e silenciar vozes independentistas que poriam em causa a unidade do novo país socialista, forjada na luta anti-fascista e de libertação dos heróicos partisans: a partir daí, a estrutura étnica do Kosovo nunca mais foi reequilibrada. Entretanto, nas últimas 3 décadas, a população albanesa apresentou taxas de natalidade particularmente elevadas em relação à população sérvia do Kosovo. O desequilíbrio acentuou-se. Mas não foi apenas isto. A autonomia alargadíssima que fora atribuída ao Kosovo só foi retirada por Slobodan Milosevic porque a população sérvia do território fora submetida a um autêntico apartheid pelas autoridades locais: havia quotas máximas para o acesso dos sérvios às universidades e todo um regime vergonhosamente discriminatório. Por outro lado, a coberto da conivência das autoridades dominantes albanesas, surgiram as primeiras acções de assédio aos sérvios por parte do UÇK: por meio de ameaças de morte, destruição de colheitas, gado, habitações e condições de vida em geral, em poucos anos 30 000 sérvios foram abandonando o território. E, ainda assim, mais tarde, foi proposto, antes do conflito chegar ao ponto a que chegou (e que veio a culminar na agressão da NATO), um estatuto de autonomia muito alargado (similar ao que se havia perdido): este foi rejeitado pelo UÇK que, sentido as "costas quentes" pelo amigo americano, sabia que não era o momento de negociar. E assim se fez a estrutura étnica do Kosovo.
Mas, entrando já na segunda questão, imaginemos que uma população se torna maioria (até maioria esmagadora) numa região: isto é motivo suficiente para a independência. É justo? Se é, proponho desde já a independência da Amadora, ou pelo menos da Cova da Moura. Afinal, a população com origem em Cabo verde é muito forte e é provável que venha, em virtude do seu crescimento demográfico mais acentuado, a ser a maioria esmagadora dos habitantes da Amadora...e se tomarmos em conta todos aqueles de origem africana, quem sabe no futuro toda a cintura de Lisboa tenha uma maioria negra e de origem africana. Tendo isso em conta, porque não podem eles alegar um direito à independência, separar-se de Portugal? Um estranho grupo, denominado os Nzingalis, apresentava na internet um manifesto nesse sentido. Mesmo que isto tenha sido uma invenção dos neo-nazis para assustar e cativar portugueses "europeus" a questão tem que se colocar: se basta tornar-se a maioria, ou a maioria num determinado lugar, então não haverá porque negar legitimidade a movimentos independentistas desse tipo. E porque não a independência de Miranda do Douro?
No entanto, a verdade é que ao mesmo tempo que se apressa a reconhecer este novo pseudo-estado, ninguém fala, pelo menos, em autorizar a realização de referendos sobre a possibilidade de independência do país Basco. A Turquia, no mesmo dia em que reconheceu o novo estado, lançou uma ofensiva militar de larga escala contra os curdos, invadindo o curdistão iraquiano. E que ninguém ouse abrir a boca para falar em independência dos curdos da Turquia! Uma deputada de origem curda no parlamento foi presa simplesmente por falar em Curdo. Gostaria de saber, aliás, qual seria a posição dos EUA e da UE se o povo palestiniano (esse sim, com muitas mais razões de monta para legitimamente fazê-lo) declarasse unilateralmente a sua constituição como estado soberano, pelo menos se o fizesse abrangendo, como é justo, os territórios (todos!!) ocupados desde 1967 pela máquina de guerra "apharteidiana", imperialista, que é o estado confessional e expansionista de Israel. Maior e mais chocante dualidade de critérios é impossível!
Mas sobre o Kosovo e a sua independência há mais a dizer: é que poderá vir a ser uma independência sui generis. E não estamos a falar de uma vaga hipótese...Para o que se segue,recorro essencialmente (com recurso a citações) ao excelente artigo de Jorge Cadima no "militante" de Março-Abril ("De novo o Kosovo") cuja leitura recomendo a toda a caterva de ingénuos sobre as relações internacionais (alguns dos quais pululam na esquerda portuguesa e europeia). O artigo foi escrito antes da declaração de independência e permite-nos ver como se foi construindo a situação que hoje temos. Fica patente a mentira, o incumprimento de promessas, o vazio das declarações, o desrespeito do direito internacional e, acima de tudo a falsidade dos motivos sempre invocados para todas as intervenções na ex-jugoslávia.
Marti Ahtisaari, "Numa «Proposta para um Resolução Global do Estatuto do Kosovo», proclama que essa «independência» terá de prosseguir sob «supervisão internacional», com uma «presença internacional civil e militar» (explicitamente atribuída à NATO) durante um período não especificado, que «apenas poderá terminar quando o Kosovo tiver concretizado as medidas referidas na Proposta de resolução».
E quais são essas medidas?Além de pias declarações sobre respeito de direitos(...)a proposta(...)proclama explicitamente que tem de haver um «processo contínuo de privatizações», com «um substancial envolvimento internacional».
Mas então quando algum povo se torna independente, soberano, não deve ser ele próprio a definir como será o seu novo estado, nomeadamente que tipo de sistema económico e políticas públicas se devem adoptar nesse novo estado? Para os ingénuos e para os que não querem entender, deixam-me deixar claro. Todo o processo de desintegração da ex-jugoslávia destinou-se a destruir o que restava do antigo sistema socialista jugoslavo. Foi por isso que com tanto afinco se apostou na secessão (ilegal) da Croácia e Eslovénia. Eram os dois estados mais reaccionários dentro da jugoslávia e os que mostravam mais vontade de aderir rapidamente ao sacro-santo princípio de uma economia de mercado livre. E assim foi. Por outro lado, dividindo a Jugoslávia em pequenas países de pequenas dimensões, a dominação económica e política ficava assegurada. Não é por outra razão que Israel hoje tenta separar A cisjordânia da Faixa de Gaza...separando e dividindo o povo palestiniano, enfraquece o adversário e tentar chantagear e quebrar a resistência desse povo martirizado. Esta táctica, de resto, coincide com a táctica do regime do apartheid na África do Sul: estes criaram os chamados "bantustões", pequenos territórios de dimensões e competências municipais (quis inclusive que a ONU reconhecesse estas "independências negras" - olha que magnânimos que eram!) onde os negros teriam, supostamente, "soberania", independência...
Retornando à ex-jugoslávia, a Alemanha fez deste território martirizado o seu "backyard", como os EUA tentam desde há muito fazer com a América Latina. Tomou as vestes de novo império autro-húngaro na região. As tropas croatas que lutavam contra as tropas das tropas da República Federal Jugoslava usavam armas e uniformes do exército alemão. Os croatas da Bósnia tiveram idêntico direito. E parece que o mesmo sucedeu com os guerrilheiros do UÇK. Entretanto, não foi por certo coincidência que durante a secessão o marco passou a ser a moeda usada na Croácia, O mais engraçado é que no chamado pré-acordo (que, para os sérvios não passou de um diktat) de Rambouillet já vinha previsto que o Kosovo deveria ser uma "free-market economy" (repare-se que supostamente este era apenas um pré-acordo, uma espécie de ponto prévio antes de começarem as negociações que deveriam levar à paz). De referir também que a moeda no período transitório deveria ser, novamente, o marco alemão...
Mas vejamos quão sui generis é esta soberania e este respeito pela democracia dos democratíssimos governos europeus, Nato e EUA. A proposta ainda tem mais maravilhas a anunciar. Citando Cadima outra vez: " a Proposta prevê também que a União Europeia exerça as funções de «Representante Civil Internacional», que será a «autoridade de supervisão máxima» no território «independente», com «fortes poderes correctivos», entre os quais os de »anular decisões ou leis aprovadas pelas autoridades do Kosovo e aplicar sanções e demitir autoridades públicas cujas acções ele/ela determine serem inconsistentes com a Resolução»(...)Mesmo no plano judicial, está prevista a existência de uma «Missão de política Europeia de Segurança e Defesa» que deverá «fiscalizar, supervisionar e aconselhar em todas as áreas relativas ao Estado de Direito no Kosovo» e que terá «o direito de investigar e julgar de forma independente, crimes sensíveis».
Nas palavras de Jorge Cadima: "o novo Kosovo será um bantustão europeu, sob ocupação colonial dos EUA/União Europeia/Nato, cujos dirigentes poderão, mesmo que eleitos democraticamente, ser afastados por ordem das autoridades coloniais". E demonstrando que estes poderes provavelmente não se ficarão apenas pelas declarações em papel, o autor relembra que análogos poderes estavam previstos nos Acordos de Dayton relativos à Bósnia e que foram abundantemente e sem vergonha usados:
"Durante o ano de 2004, o governador colonial na Bósnia, o ex militar britânico Paddy Ashdown, «demitiu 59 políticos [eleitos] na República Sérvia [da Bósnia] tendo forçado o próprio Presidente sérvio-bósnio a demitir-se em Abril de 2004. Em Março deste ano [2005] coube a vez ao membro croata da Presidência da Bósnia-Herzegovina, Dragan Covic, ser demitido devido a acusações nunca provadas de corrupção»
Palavras para quê? Democracia, Independência, Direitos Humanos, tal como interpretados pelos EUA, UE e NATO.
Os meus parabéns também a todos os esquerdalhos que conseguem ser suficientemente ignorantes e ingénuos para serem manipulados a ponto de achar que alguma vez se produzirá justiça, democracia ou sequer independência real nestes processos dominados pelos grandes governos imperialistas.
Entretanto, a indignação sobe de tom quanto ao Tibete. Independentemente do que se possa achar quanto às reivindicações de independência dos tibetanos (que, para todo o efeito, ainda que o Tibete tenha sido parte integrante da China desde o séc. XIII, me parecem mais justificados do que a independência dos Albaneses do Kosovo), será que alguns desses esquerdistas ainda não entenderam que esta campanha e o timing da mesma são tudo menos inocentes? Será por acaso que uns poucos meses antes tivemos o Dalai Lama a percorrer meio mundo, visitando vários países? Quando os jogos olímpicos de Pequim vão a velocidade de cruzeiro e ameaçam ser um sucesso, surgem estas manifestações, aparentemente sem motivo mais próximo algum. Por outro lado, circulam em vários media internacionais fotografias falsas (e que só podem ter sido usadas de má fé várias delas) que pretendem demonstrar a brutalidade da repressão chinesa sobre os monges budistas. Veja-se a este propósito vários artigos no Rebelión.Usam-se fotografias e até imagens em estações de televisão que são retiradas de outro contexto (fotografias tiradas no nepal onde, inclusive se podem ver claramente os uniformes da polícia nepalesa)e atribuem-se aos acontecimentos em Lhassa.
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=65420
De resto, gostaria apenas de lembrar que o "simpático" Dalai Lama ("Deus-rei")não é nenhum dirigente eleito e o regime em que vivia o tibete antes da revolução chinesa era um regime Feudal-teocrático. Os monges eram uma classe feudal e o estatuto dos camponeses era similar ao de servos medievais. A família do Dalai Lama tinha, ao que parece, centenas de escravos. Por isso é que a repressão sobre essa classe crerical- nobiliárquica foi tão dura e é por isso também que parte da população tibetana não nutria nem nutre grandes sentimentos por dirigentes como dalai lama ou pelo regime cessante...
Antes que se presuma qualquer simpatia pelo regime chinês aviso desde já que se enganam profundamente: o socialismo foi há muito abandonado por um capitalismo selvagem. De mera táctica temporária, o status quo parece ter-se tornado já o próprio objectivo: um crescimento capitalista desenfreado. Ora autoritarismo neoliberal é do mais repugnante que existe.
Cabe perguntar se faz algum sentido esta independência. Independentemente da questão jurídica, do ponto de vista da justiça, será que assiste alguma razão aos que agora unilateralmente (mas obviamente escudados na conivência tácita dos EUA e governos da UE) declaram a secessão da Sérvia. Têm direito à independência os albaneses do Kosovo?
Podemos falar, naturalmente na estrutura demográfico-étnica da região: há 90% de Albaneses para 10% de outras etnias. Mas isso levanta logo duas questões: primeiro, como é que se atingiu esse desequilíbrio populacional; segundo, se esse for o critério, e se fosse aplicado universalmente, haveria uma explosão de micro-estados por todo o lado, no seio de estados nações de formação bem antiga.
Quanto à primeira questão, há que sublinhar apenas alguns aspectos históricos. Ao longo do século XIX e até ao início do século XX a relação demográfica na região não tinha esta estrutura desequilibrada. A alteração tornou-se particularmente notória com a limpeza étnica que ocorreu no período da segunda guerra mundial, quando albaneses de simpatia fascista, auxiliados e sob a cobertura da itália de Mussolini, afugentaram muitos sérvios da região- Quando se constituiu a República Federal da Jugoslávia, impediu-se ou dificultou-se, pelo menos, o retorno dos sérvios à região, no intuito, compreensível, de evitar causar tensões étnicas e regionais que pudessem ameaçar o novo estado dos "eslavos do sul", cuja força residia na união fraternal, em oposição aos antigos donos imperialistas. Pela primeira vez, os povos desta região não eram meras marionetas nos jogos entre impérios (como haviam sido do império Austro-húngaro, otomano e russo), mas tinham uma voz própria, autónoma, no mapa-mundi. Assim, Tito buscou atenuar tensões e silenciar vozes independentistas que poriam em causa a unidade do novo país socialista, forjada na luta anti-fascista e de libertação dos heróicos partisans: a partir daí, a estrutura étnica do Kosovo nunca mais foi reequilibrada. Entretanto, nas últimas 3 décadas, a população albanesa apresentou taxas de natalidade particularmente elevadas em relação à população sérvia do Kosovo. O desequilíbrio acentuou-se. Mas não foi apenas isto. A autonomia alargadíssima que fora atribuída ao Kosovo só foi retirada por Slobodan Milosevic porque a população sérvia do território fora submetida a um autêntico apartheid pelas autoridades locais: havia quotas máximas para o acesso dos sérvios às universidades e todo um regime vergonhosamente discriminatório. Por outro lado, a coberto da conivência das autoridades dominantes albanesas, surgiram as primeiras acções de assédio aos sérvios por parte do UÇK: por meio de ameaças de morte, destruição de colheitas, gado, habitações e condições de vida em geral, em poucos anos 30 000 sérvios foram abandonando o território. E, ainda assim, mais tarde, foi proposto, antes do conflito chegar ao ponto a que chegou (e que veio a culminar na agressão da NATO), um estatuto de autonomia muito alargado (similar ao que se havia perdido): este foi rejeitado pelo UÇK que, sentido as "costas quentes" pelo amigo americano, sabia que não era o momento de negociar. E assim se fez a estrutura étnica do Kosovo.
Mas, entrando já na segunda questão, imaginemos que uma população se torna maioria (até maioria esmagadora) numa região: isto é motivo suficiente para a independência. É justo? Se é, proponho desde já a independência da Amadora, ou pelo menos da Cova da Moura. Afinal, a população com origem em Cabo verde é muito forte e é provável que venha, em virtude do seu crescimento demográfico mais acentuado, a ser a maioria esmagadora dos habitantes da Amadora...e se tomarmos em conta todos aqueles de origem africana, quem sabe no futuro toda a cintura de Lisboa tenha uma maioria negra e de origem africana. Tendo isso em conta, porque não podem eles alegar um direito à independência, separar-se de Portugal? Um estranho grupo, denominado os Nzingalis, apresentava na internet um manifesto nesse sentido. Mesmo que isto tenha sido uma invenção dos neo-nazis para assustar e cativar portugueses "europeus" a questão tem que se colocar: se basta tornar-se a maioria, ou a maioria num determinado lugar, então não haverá porque negar legitimidade a movimentos independentistas desse tipo. E porque não a independência de Miranda do Douro?
No entanto, a verdade é que ao mesmo tempo que se apressa a reconhecer este novo pseudo-estado, ninguém fala, pelo menos, em autorizar a realização de referendos sobre a possibilidade de independência do país Basco. A Turquia, no mesmo dia em que reconheceu o novo estado, lançou uma ofensiva militar de larga escala contra os curdos, invadindo o curdistão iraquiano. E que ninguém ouse abrir a boca para falar em independência dos curdos da Turquia! Uma deputada de origem curda no parlamento foi presa simplesmente por falar em Curdo. Gostaria de saber, aliás, qual seria a posição dos EUA e da UE se o povo palestiniano (esse sim, com muitas mais razões de monta para legitimamente fazê-lo) declarasse unilateralmente a sua constituição como estado soberano, pelo menos se o fizesse abrangendo, como é justo, os territórios (todos!!) ocupados desde 1967 pela máquina de guerra "apharteidiana", imperialista, que é o estado confessional e expansionista de Israel. Maior e mais chocante dualidade de critérios é impossível!
Mas sobre o Kosovo e a sua independência há mais a dizer: é que poderá vir a ser uma independência sui generis. E não estamos a falar de uma vaga hipótese...Para o que se segue,recorro essencialmente (com recurso a citações) ao excelente artigo de Jorge Cadima no "militante" de Março-Abril ("De novo o Kosovo") cuja leitura recomendo a toda a caterva de ingénuos sobre as relações internacionais (alguns dos quais pululam na esquerda portuguesa e europeia). O artigo foi escrito antes da declaração de independência e permite-nos ver como se foi construindo a situação que hoje temos. Fica patente a mentira, o incumprimento de promessas, o vazio das declarações, o desrespeito do direito internacional e, acima de tudo a falsidade dos motivos sempre invocados para todas as intervenções na ex-jugoslávia.
Marti Ahtisaari, "Numa «Proposta para um Resolução Global do Estatuto do Kosovo», proclama que essa «independência» terá de prosseguir sob «supervisão internacional», com uma «presença internacional civil e militar» (explicitamente atribuída à NATO) durante um período não especificado, que «apenas poderá terminar quando o Kosovo tiver concretizado as medidas referidas na Proposta de resolução».
E quais são essas medidas?Além de pias declarações sobre respeito de direitos(...)a proposta(...)proclama explicitamente que tem de haver um «processo contínuo de privatizações», com «um substancial envolvimento internacional».
Mas então quando algum povo se torna independente, soberano, não deve ser ele próprio a definir como será o seu novo estado, nomeadamente que tipo de sistema económico e políticas públicas se devem adoptar nesse novo estado? Para os ingénuos e para os que não querem entender, deixam-me deixar claro. Todo o processo de desintegração da ex-jugoslávia destinou-se a destruir o que restava do antigo sistema socialista jugoslavo. Foi por isso que com tanto afinco se apostou na secessão (ilegal) da Croácia e Eslovénia. Eram os dois estados mais reaccionários dentro da jugoslávia e os que mostravam mais vontade de aderir rapidamente ao sacro-santo princípio de uma economia de mercado livre. E assim foi. Por outro lado, dividindo a Jugoslávia em pequenas países de pequenas dimensões, a dominação económica e política ficava assegurada. Não é por outra razão que Israel hoje tenta separar A cisjordânia da Faixa de Gaza...separando e dividindo o povo palestiniano, enfraquece o adversário e tentar chantagear e quebrar a resistência desse povo martirizado. Esta táctica, de resto, coincide com a táctica do regime do apartheid na África do Sul: estes criaram os chamados "bantustões", pequenos territórios de dimensões e competências municipais (quis inclusive que a ONU reconhecesse estas "independências negras" - olha que magnânimos que eram!) onde os negros teriam, supostamente, "soberania", independência...
Retornando à ex-jugoslávia, a Alemanha fez deste território martirizado o seu "backyard", como os EUA tentam desde há muito fazer com a América Latina. Tomou as vestes de novo império autro-húngaro na região. As tropas croatas que lutavam contra as tropas das tropas da República Federal Jugoslava usavam armas e uniformes do exército alemão. Os croatas da Bósnia tiveram idêntico direito. E parece que o mesmo sucedeu com os guerrilheiros do UÇK. Entretanto, não foi por certo coincidência que durante a secessão o marco passou a ser a moeda usada na Croácia, O mais engraçado é que no chamado pré-acordo (que, para os sérvios não passou de um diktat) de Rambouillet já vinha previsto que o Kosovo deveria ser uma "free-market economy" (repare-se que supostamente este era apenas um pré-acordo, uma espécie de ponto prévio antes de começarem as negociações que deveriam levar à paz). De referir também que a moeda no período transitório deveria ser, novamente, o marco alemão...
Mas vejamos quão sui generis é esta soberania e este respeito pela democracia dos democratíssimos governos europeus, Nato e EUA. A proposta ainda tem mais maravilhas a anunciar. Citando Cadima outra vez: " a Proposta prevê também que a União Europeia exerça as funções de «Representante Civil Internacional», que será a «autoridade de supervisão máxima» no território «independente», com «fortes poderes correctivos», entre os quais os de »anular decisões ou leis aprovadas pelas autoridades do Kosovo e aplicar sanções e demitir autoridades públicas cujas acções ele/ela determine serem inconsistentes com a Resolução»(...)Mesmo no plano judicial, está prevista a existência de uma «Missão de política Europeia de Segurança e Defesa» que deverá «fiscalizar, supervisionar e aconselhar em todas as áreas relativas ao Estado de Direito no Kosovo» e que terá «o direito de investigar e julgar de forma independente, crimes sensíveis».
Nas palavras de Jorge Cadima: "o novo Kosovo será um bantustão europeu, sob ocupação colonial dos EUA/União Europeia/Nato, cujos dirigentes poderão, mesmo que eleitos democraticamente, ser afastados por ordem das autoridades coloniais". E demonstrando que estes poderes provavelmente não se ficarão apenas pelas declarações em papel, o autor relembra que análogos poderes estavam previstos nos Acordos de Dayton relativos à Bósnia e que foram abundantemente e sem vergonha usados:
"Durante o ano de 2004, o governador colonial na Bósnia, o ex militar britânico Paddy Ashdown, «demitiu 59 políticos [eleitos] na República Sérvia [da Bósnia] tendo forçado o próprio Presidente sérvio-bósnio a demitir-se em Abril de 2004. Em Março deste ano [2005] coube a vez ao membro croata da Presidência da Bósnia-Herzegovina, Dragan Covic, ser demitido devido a acusações nunca provadas de corrupção»
Palavras para quê? Democracia, Independência, Direitos Humanos, tal como interpretados pelos EUA, UE e NATO.
Os meus parabéns também a todos os esquerdalhos que conseguem ser suficientemente ignorantes e ingénuos para serem manipulados a ponto de achar que alguma vez se produzirá justiça, democracia ou sequer independência real nestes processos dominados pelos grandes governos imperialistas.
Entretanto, a indignação sobe de tom quanto ao Tibete. Independentemente do que se possa achar quanto às reivindicações de independência dos tibetanos (que, para todo o efeito, ainda que o Tibete tenha sido parte integrante da China desde o séc. XIII, me parecem mais justificados do que a independência dos Albaneses do Kosovo), será que alguns desses esquerdistas ainda não entenderam que esta campanha e o timing da mesma são tudo menos inocentes? Será por acaso que uns poucos meses antes tivemos o Dalai Lama a percorrer meio mundo, visitando vários países? Quando os jogos olímpicos de Pequim vão a velocidade de cruzeiro e ameaçam ser um sucesso, surgem estas manifestações, aparentemente sem motivo mais próximo algum. Por outro lado, circulam em vários media internacionais fotografias falsas (e que só podem ter sido usadas de má fé várias delas) que pretendem demonstrar a brutalidade da repressão chinesa sobre os monges budistas. Veja-se a este propósito vários artigos no Rebelión.Usam-se fotografias e até imagens em estações de televisão que são retiradas de outro contexto (fotografias tiradas no nepal onde, inclusive se podem ver claramente os uniformes da polícia nepalesa)e atribuem-se aos acontecimentos em Lhassa.
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=65420
De resto, gostaria apenas de lembrar que o "simpático" Dalai Lama ("Deus-rei")não é nenhum dirigente eleito e o regime em que vivia o tibete antes da revolução chinesa era um regime Feudal-teocrático. Os monges eram uma classe feudal e o estatuto dos camponeses era similar ao de servos medievais. A família do Dalai Lama tinha, ao que parece, centenas de escravos. Por isso é que a repressão sobre essa classe crerical- nobiliárquica foi tão dura e é por isso também que parte da população tibetana não nutria nem nutre grandes sentimentos por dirigentes como dalai lama ou pelo regime cessante...
Antes que se presuma qualquer simpatia pelo regime chinês aviso desde já que se enganam profundamente: o socialismo foi há muito abandonado por um capitalismo selvagem. De mera táctica temporária, o status quo parece ter-se tornado já o próprio objectivo: um crescimento capitalista desenfreado. Ora autoritarismo neoliberal é do mais repugnante que existe.

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