Wednesday, December 06, 2006

Mais alguns exemplos concretos do que significa a ditadura informativa sob a "democracia burguesa"

Em primeiro lugar, queria relatar na primeira pessoa aquilo que pude observar com os meus próprios olhos na "independentíssima" e isenta BBC (BBC World no caso) no dia (na noite/madrugada, para ser mais preciso) da vitória eleitoral de Rafael Correa (noite de 30 para 1, se não estou em erro).
Enquanto fazia zapping, parei pelo canal BBC World ao notar que se falava das eleições no Equador. Sabia, por notícias que lera alguns dias antes, que o candidato da esquerda estava bem colocado nas sondagens. Estas pareciam dar um empate técnico entre este e o candidato da direita, o empresário Noboa. Buscava, pois, perceber qual fora o resultado eleitoral. Mas não consegui. Tinha acabado de mudar e, enquanto tentava apanhar o fio à meada, ainda a apresentadora falava, o telejornal foi interrompido abruptamente, sem sequer se colocar a música e o genérico do telejornal BBC, como soe suceder. Sucedem-se 3, 4 minutos de intervalo (preenchidos com alguma publicidade, creio). Retomou-se o telejornal, mas agora apenas para ver as headlines acompanhadas de imagens do dia. Nenhuma referência às eleições no Equador nas mesmas headlines. No dia seguinte, fico a saber que ganhou Correa, o candidato da esquerda.


Na Venezuela, os "democráticos opositores" a Chávez( os tais que organizaram um golpe de estado falhado que, a ter sucesso, dissolveria todos os poderes democraticamente eleitos e constitucionalmente consagrados no país, colocando à frente do mesmo, como presidente interino, um dos maiores empresários do país e presidente da confederação patronal) usam dos media privados para divulgar as mentiras mais grosseiras.

Como sempre, quando os seus verdadeiros interesses sócio-económicos são postos em causa, a burguesia não hesita em pôr de lado qualquer compromisso com a verdade e com a democracia. A isenção jornalística de que tanto se gabam é a primeira vítima e o verniz democrático estala, pondo a nú como a "democracia" só lhes interessa na medida em que seja controlável e domesticável. Na verdade, não é o ideal da democracia que perseguem, mas apenas o método mais adequado de dominação ideológica. Uma teia de mentiras combinada com a aparente (e nada mais do que isso) liberdade individual e soberania popular são o suficiente, normalmente, para controlar eficazmente o verdadeiro pluralismo de projectos políticos, afastando os que ameacem a estrutura sócio-económica vigente e os interesses das classes dominantes. Não há melhor dominação do que a imperceptível ou discreta.
Mas a histeria já tomou conta da oposição a Chávez.
Aqui fica um pequeno exemplo de manipulação que, de tão grosseira, tem algo de pueril. Recentemente uma sondagem realizada em cooperação por uma empresa venezuelana e professores da Universidade Complutense de Madrid dava uma vantagem de entre 15 a 20% a Chávez face ao seu adversário de direita, Manuel Rosales. Confrontada com tantas sondagens que indicavam a vitória clara de Chávez, inclusive das provenientes de "amigos americanos", a reacção perdia legitimidade para brandir o falso argumento do costume: a alegação de fraude após as eleições. Pois bem, havia que colocar em causa o resultado da sondagem...atacando os seus autores.
A 16 de Novembro, no programa "Aló Cidadão" na Globovisión (televisão privada), a apresentadora, Maria Isabel Párraga, afirma categoricamente que a investigadora da Universidade Complutense de Madrid responsável pela apresentação pública dos resultados, Carolina Bescansa, não é quem diz ser: no website oficial da universidade faz uma busca entre o corpo docente da mesma em busca de Carolina "Descansa" (troca o B por um D). Obviamente, nada encontra, pelo que fica confirmado para os seus telespectadores que a sondagem é obra de falsos professores universitários e daí conclui-se que a fidedignidade da mesma é nula. O diário El Nacional repete a mentira. Agora a "falsa" professora chama-se Carolina "Bescans". Outros jornais anti-chavistas repetem a mesma dose. A situação chegou a um ponto tal, que é a própria universidade Complutense de MAdrid que ,em comunicado, vem repôr a verdade, afirmando a pertença de Carolina Bescansa ao corpo docente e censurando a conduta destes órgãos de comunicação social que só aceitam o que lhes convém ouvir.
Para mais detalhes: www.rebellion.org/noticia.php?id=42025

Mas a maioria dos casos são mais "discretos", menos visíveis. A mentira bem contada (i.e., credível) passa por dar factos verdadeiros, de preferência apenas dados verdadeiros. A negação de factos pura é pouco eficiente. Essencial é a omissão (não a negação) de factos e a descontextualização das situações em que ocorrem outros.
Iñaki de Juana Chaos, condenado a 12 anos de prisão por escrever dois artigos em que ataca o sistema judicial e sobretudo carcerário espanhol, bem como os políticos e homens da direita franquista que pululam na política, na guardia civil e no aparelho de estado espanhol. Como se passou isto? Aplicando um verdadeiro Direito Penal do Autor: isto é, quem escreveu os artigos é um ex-etarra (que já cumpriu longa pena por actos terroristas) e por essa razão, pelo tipo de "psicologia", pelo tipo de pessoa que é, os seus actos são valorizados de forma diferente. A pessoa não é julgada pelos actos em si, mas pelo tipo de pessoa que é ou se supõe ser. Qual o destaque dado a uma notícia destas? Ela surgiu em algum jornal português? Na espanha, qual a relevância dada a este escandaloso procedimento? E qual o destaque dado a tantos milhares de arbitrariedades e abusos de direitos humanos, denunciados por algumas organizações defensoras de direitos humanos? A partir de certa altura torna-se desnecessário até insistir muito nestas manobras. A manipulação criou já quadros mentais, grelhas interpretativas do mundo suficientemente deformadas para que poucos, senão apenas os mais activos e denodados na investigação da verdade, consigam ver alguma coisa para lá do nevoeiro denso. Mesmo que saia uma ou outra notícia em que "os bons" ajam mal e os maus "ajam bem", toda a gente sabe que os maus são maus. Ou seja: fazem maldades, pois claro; são anti-democráticos e contrários aos direitos humanos, eventualmente até por princípio; e quando fazem algo de bom é uma consequência indirecta e não querida, ou trata-se apenas de "propaganda" para desviar as atenções. E toda a gente sabe que os bons são bons (o que quer dizer que mesmo que não sejam muito "bons", o seu "reino" dá origem à "bondade possível e o "mal" que façam será sempre um "erro", um desvio extraordinário e temporário). Na verdade, dando-se a conhecer uma ou outra dessas notícias "discordantes" até se aumenta a capacidade de manipulação, reforçando-se a ilusão tão arreigada de que efectivamente há ou pode haver real "pluralismo de perspectivas" num sistema de propriedade privada capitalista dos meios de comunicação. Para esta notícias ver:
http://www.gara.net/pf_idatzia/20061109/art188159.php

Como dizíamos, a partir do momento em que se cria um quadro interpretativo da realidade na mente da maioria dos cidadãos, constituindo o passo decisivo para tal, o instilar da própria crença na neutralidade, isenção e carácter "não ideológico" ou "não dominador" dos media, a dominação torna-se facílima. Agora, Para escapar a este verdadeiro "matrix" não há comprimido que valha. Só uma atitude profundamente crítica, regra geral estimulada ou desenvolvida a partir de certos círculos sociais minoritários (eles próprios ostracizados pelo silêncio e pela manipulação dos aparelhos ideológicos do estado), constituídos por indivíduos críticos ou pelo menos com perspectivas divergentes das dominantes, é que nos pode salvar (e nunca totalmente) das "cataratas" (no sentido médico) informativas.
Regra geral, as pessoas nem estão despertas para a possibilidade de os media poderem manipular (deliberadamente ou não) e nem detectam a carga ideológica e o potencial formatador que o uso desta ou daquela expressão, deste ou daquele adjectivo, carregam.
O UÇK foi apresentado como um "movimento de libertação" dos albaneses (e não uma organização nacionalista-xenófoba, querendo limpar etnicamente territórios pertencentes historicamente a outros países, no intuito de formar uma grande e gloriosa albânia). Já quanto ao Hamas, nunca vi que o classificassem de "movimento de resistência" (quanto mais de "libertação"). Na verdade nunca ouvi que tivessem direito a outro título que não o de terroristas. As palavras e os adjectivos não são inocentes. Curioso foi perceber como a atitude em relação ao UÇK mudou quando este começou com actividades terroristas na república da Macedónia...Os bons são bons, mas se atacarem "outros do clube dos bons" passam a ser maus ou censuráveis.

Agora um exemplo de como se pode ser faccioso, de como se pode estar completamente mergulhado numa perspectiva completamente simplista, maniqueísta e deformada da realidade e como assim se reproduz e perpetua, enquanto jornalista, essa mesma perspectiva.

A entrevista ao presidente ahmadinejad do Irão por um jornalista americano da CNN aquando do seu discurso na ONU, em Nova Iorque, era acompanhada no televisor pela passagem de texto mais abaixo. Tratava-se de citações descontextualizadas e cirurgicamente escolhidas da entrevista. O caso talvez mais flagrante foi o seguinte. O jornalista sugere que o presidente Ahmadinejad seria um negacionista do Holocausto judeu e convida-o a responder à acusação. Da resposta, longa, mas no seu conjunto clara, retira-se este trecho que isolado pareceria "bombástico": "Diga-me: se houve holocausto onde foi que aconteceu?". Diríamos, pois, caso não houvessemos ouvido tudo o que precede e sucede a estas palavras, que efectivamente o presidente do Irão nega o Holocausto. Nada de mais errado. O que ele diz é que o Holocausto ocorreu na Europa, não na Palestina, não no mundo árabe ou muçulmano. E isto porque se usa e abusa da memória do holocausto para justificar a política israelita. No fundo, a questão que Ahmadinejad levanta, bastante razoável, é somente esta: que têm os palestinianos a ver com o Holocausto, porque têm que pagar os árabes palestinianos pelos pecados dos europeus? Se se sentiam e sentem mal com as suas responsabilidades, os estados europeus que tivessem oferecido parte do seu território após a 2ª guerra mundial. Não podiam nem podem oferecer a terra dos outros, nem muito menos oferecer a vida e dignidade doutro povo para o "holocausto" (holocausto quer dizer sacrifício...o sacrifício de animais que se costumava praticar no culto hebraico) às mãos de nazis israelitas como Sharon. De resto, ao longo de toda a entrevista o entrevistador comporta-se não como tal, mas como inquisidor ou cruzado medieval, tentando desferir "golpes luminosos" sobre aquele que considera não "um entrevistado", mas um herético encapotado ou um mesmo um inimigo sorrateiro, um demónio hábil. Repete as mesmas perguntas vezes e vezes sem conta, após ter tido respostas frontais e cabais. E qual a razão? Ele "sabe" (ele julga) que Ahmadinejad só pode ser anti-semita. Esse é o maior pecado que pode haver à face da terra desde que os judeus passaram a ter o estatuto de "super-vítimas" (vide o livro de N. Finkelstein: "a indústria do holocausto"). Sabendo-o, não pode aceitar que ele (ahmadinejad) não responda aquilo que ele(entrevistador) quer: a admissão do pecado. Escusando-me a juízos de valor mais gerais sobre o presidente do Irão, diria que teve ao longo de todo a entrevista uma postura corajosa, desafiadora e digna, ao contrário do seu entrevistador.
Veja-se outro exemplo quase cómico (e mais subtil) também retirado de uma informação da CNN, a 29 de Outubro deste ano: "Lula, apesar de ter sido o candidato da esquerda empenhou-se em manter a economia do país «à tona»". Será que a esquerda não consegue ou não quer manter a economia do país "à tona"?
O diário "el mundo" de 15 de Outubro afirma que entre as vítimas do terrorismo do movimento "Sendero Luminoso" se devem contar os assassinatos que o exército peruano, no seu combate ao movimento, perpetrou em aldeias que se supunham apoiantes do mesmo"
Pergunto eu: e, já agora, seguindo na mesma lógica tortuosa, os judeus resistentes do gueto de varsóvia não devem ser considerados responsáveis pela morte de todos os judeus do leste europeu, na medida em que ao resistirem aos nazis, estimularam ainda mais a repressão e ímpeto exterminacionista nazi? E os comunistas, pelo simples facto de existirem não são culpados de todas as mortes (de qualquer dos lados)na 2ª guerra mundial? Afinal, é verdade que o nazi-fascismo é uma reacção das classes dominantes ao medo da revolução socialista...
ver:
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=40818

Só para que se note até onde pode chegar a discrepância abjecta de tratamento de factos do mesmo calibre conforme os "praticantes" do mesmo, deixem-me aborrecer-vos com mais este exemplo.
Sakharov, físico soviético que passou efectivamente dados sobre o programa nuclear soviético ao governo dos EUA foi condenado a permanecer em prisão domiciliária (n sei se por 20 anos, não sei se a título perpétuo)...O escândalo, a insistência dos media "ocidentais" no tema foi tremenda. Era a prova definitiva do carácter tirânico do regime. Compare-se com a condenação à morte do casal Rosenberg nos EUA por crime do mesmo tipo. Mas, para que não se diga que isto é "uma velharia" do tempo da guerra fria, veja-se um caso tão ou mais chocante. O do físico israelita Vanuanu que revelou a um jornal inglês o que há muito se desconfiava: que Israel possui inúmeras bombas atómicas e um programa nuclear no qual ele próprio participou e que, portanto, conhece "por dentro". Este homem, por este facto, por este simples facto e não por ter revelado tecnologia ou detalhes do programa nuclear israelita, foi condenado a 18 anos de prisão, 12 deles passados em solitária (compare-se isto com a prisão domiciliária de Sakharov, que, por horrível que seja - e é- implicava viver todos os com a família em condições relativamente confortáveis). Para quem não saiba, recentemente Vanuanu foi novamente preso porque continuava a dar entrevistas (apesar de estar proibido de o fazer - democraticamente, claro está, porque Israel é um país democrático) a jornalistas no mosteiro donde não estava autorizado a sair. Que destaque foi dado na altura ? Minúsculo. As suas revelações despertaram parca atenção e nenhum medo ou pânico (compare-se com os casos actuais do Irão e Coreia do Norte). Ainda assim...foi por pouco tempo. Da sua segunda prisão quase não se encontrará referências na imprensa escrita...quanto mais nas televisões. E sobretudo, perante este e outros casos, nunca se coloca a questão realmente incómoda, nunca se adianta que estes comportamentos sejam "anti-democráticos" e muito menos se ousa pensar (e dizer) que Israel possa não ser democrático.

2 Comments:

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