Eleições presidenciais: um esboço de análise
Queria deixar aqui a minha opinião sobre as eleições presidenciais, o que as precedeu e o resultado final, bem como algumas notas sobre os vários candidatos.
A vitória de Cavaco Silva deu-se por uma mera diferença de 30 000 votos o que é francamente pouco. Atendendo a um resultado destes, dificilmente se poderá dizer, como é hábito nos media, que Cavaco Silva (ou qualquer outro candidato com vitória tão estreita) é o "presidente de todos os portugueses". Um tal resultado não deveria produzir nos cidadãos até agora mais incautos e desatententos um sentimento de salutar desconfiança perante os órgãos de comunicação social? Digo isto não apenas pela descarada promoção que foi feita "ao professor" (que eu saiba, Francisco Louça e Mário Soares tb são "senhores doutores", se é que isso se deva relevar, e deram aulas no ensino universitário também, pelo que é injustificável que não mereçam o mesmo tratamento) dando a entender, desde o início, que Cavaco Silva não era um candidato, mas pura e simplesmente um consensual "futuro presidente da república", algo como um herdeiro ao trono. Digo-o também e sobretudo porque esses mesmos oráculos "infalíveis " tentaram, com manifesta má-fé, transformar aos olhos dos nossos cidadãos politicamente ignorantes o seu método délfico (relembrando perigosamente um recauchutamento da tese da interpretação do "volkgeist" pelo führer-cavaco) numa tese "científica", apresentando sondagens que davam vantagens impressionantes (e inéditas em Portugal) a este "caudilho" promovido pelos media. Lembram-se dos mais de 60% atribuídos a alguns meses de distância? A folia destes senhores chegou ao ponto de apresentar quase 70% dos votos concentrados no candidato da direita! Dizer que isto se trata de meros "erros" técnicos , ou que efectivamente 20% dos eleitores mudaram de opinião desde essa data até ao dia das eleições, é simplesmente risível. Posto isto, que fará Cavaco (abstraindo das visitas de estado, dos discursos vazios e de circunstância)? Muito pouco. Já ficou bem claro que este D. Sebastião não vai querer sair do nevoeiro, pelo simples facto de que a "salvação de Portugal", tal como ele a entende, está a ser posta em prática pelo governo mais à direita que o país alguma vez teve. Daí que veremos um sereno reinado de passividade alegre (não obstante as suas tendências francamente autoritárias). O casamento com Sócrates possivelmente não será de felicidade eterna. É que no final do mandato do actual governo, alguns dirigentes do PS, conscientes da impopularidade que o governo granjeou, quererão lançar mão de medidas demagógicas e abrir os cordões à bolsa (note-se que, em certa medida, já o fizeram, com estes "complementos de reforma", ridiculamente baixos e quase inacessíveis atendendo aos obstáculos burocráticos), ao que, por convicção e oportunismo, Cavaco Silva poderá responder, tomando uma posição de intransigência, gerando uma crise de que beneficiará o seu partido nas eleições que se seguirão.
A votação significativamente baixa de Soares deve-se ao facto de ele ser o candidato "do governo". Não adianta escamotear esse facto. Alfredo Barroso, apoiante da candidatura de Soares, ainda a semanas das eleições, foi honesto, revelando que esta candidatura sofreria muito pelas políticas do governo. Disse até onde se sentiria (geográfica e socialmente falando) mais esse efeito: entre os funcionários públicos (e respectivos dependentes), e restantes assalariados, particularmente na zona da grande Lisboa. Essa mesma honestidade intelectual e política faltou aos dirigentes do PS após a hecatombe eleitoral. Segundo os inefáveis Sócrates, António Costa ou Jorge Coelho, os péssimos resultados, para a esquerda e para Mário Soaresm, não seriam consequência das políticas do actual governo, mas da acção esquerdista, divisionista e irresponsável, dos dois partidos à sua esquerda e da própria candidatura "rebelde" de Manuel Alegre. Pior cego é aquele que não quer ver e mais não digo. Verdade seja dita, penso que Sócrates e alguns dirigentes do PS terão preferido este resultado (de vitória de Cavaco Silva à primeira volta, mesmo com tão baixo resultado obtido pelo candidato do governo) a uma segunda volta insegura, confrontando Alegre e Cavaco. Por várias razões. Em primeiro lugar, Alegre representava (independentemente de ideologicamente não ser diferente ou muito diferente de Soares) o cartão amarelo ao governo de muitos descontentes. Pior, era o cartão amarelo sobretudo daqueles que haviam votado no PS aquando das eleições legislativas, ou seja, de eleitores do PS, muitos deles provavelmente militantes ou simpatizantes de longa data. Essa leitura confirma-se pelos 20% que Alegre obteve, num contexto em que Jerónimo de Sousa não só manteve, como aumentou o número de votos obtidos pela CDU nas eleições legislativas (pelo que os votos em alegre não são "votos úteis" dos eleitores CDU) e em que se verifica uma diminuição de votos no caso de Louça (obviamente, houve algum voto útil de bloquistas). Por essa razão, a manutenção de Alegre numa 2ª volta, era o prolongamento da contestação e do cartão amarelo ao governo.
Em segundo lugar, haveria o "risco" de Alegre ganhar. Alegre não seria um grande opositor, é certo. Não só por ser um ps, um dos "founding fathers" do PS, mas porque ideologicamente não está particularmente à esquerda e, dada a sua superficialidade, seria relativamente manipulável (Sampaio é o exemplo acabado da "boa pessoa" que é tão facilmente manipulável e que efectivamente foi tão manipulado que acabou por ser cúmplice nos maiores golpes da direita portuguesa). Contudo, é verdade que ele tomou posições "radicais" e um tanto assustadoras para o governo, já habituado à lassidão, passividade e tendência manipulável do Sampaio: perante a possibilidade de privatização nalguns sectores, Alegre disparou com o famoso "obviamente demito-o".
Cavaco Silva conviria muito mais ao governo Sócrates. Note-se, entretanto, que todos os dirigentes alternativos ou críticos no seio do próprio PS foram sendo "afastados": Soares pai neste desastre eleitoral, Alegre não ganhou, nem foi à segunda volta. Carrilho já fora enviado em missão suicida, na sua candidatura à câmara de Lisboa. A Soares filho também lhe deram um presente envenenado, ao propô-lo para a difícil conquista de Sintra, onde fracassou. Que conveniente!
Soares e Cavaco foram particularmente lacónicos quando se tratava de se pronunciarem sobre posições concretas que tomariam face a alguns problemas específicos. Curiosamente, esta atitude, que deveria ser censurada por mostrar falta de transparência e honestidade (ocultando da população eleitora as suas reais intenções) e , igualmente, fraca sensibilidade democrática, foi elogiada como demonstração da astúcia de dois animais políticos. Acusaram Alegre e os outros candidatos de incontinência verbal, de falta de "esperteza" política. Como se o que fosse necessário neste país fossem mais espertalhões...
Por outro lado, encontramos uma similitude entre os discursos de Cavaco e Alegre :
ambos insistiram na tese ridícula e perigosa de que a sua candidatura seria "independente" e "não-partidária" e de que estavam assim a abrir caminho a uma nova forma de política.
A tese é ridícula porque ninguém é "independente", mesmo que seja financeiramente independente de um particular partido. Todos recebem apoios, institucionais e pessoais, de determinadas áreas e representam determinados interesses concretos aos quais estão necessariamente ligado. Em última análise, ninguém é independente das suas próprias ideias e estas não nascem no vazio sociológico: são produto de um conjunto de influências e condicionantes. E Alegre quer fazer-nos de idiotas? Acaso não é ele um dos founding fathers do PS? E um militante comprometidíssimo do mesmo desde há mais de 30 anos?
Mas se Alegre podia invocar uma relativa independência das estruturas partidárias, Cavaco nem isso: A sua candidatura contou desde o primeiro momento (aliás, em rigor, desde muito antes do "1º momento, se considerarmos este o momento da formalização da candidatura) com o apoio expresso e incondicional dos dois partidos da direita. Por outro lado, também nunca foi independente dos interesses da banca, dos grandes empresários e dos seus muitos Goebbels economistas e jornalistas.
A tese-poesia de Manuel Alegre da "viçosa e regeneradora sociedade civil" (que ele representaria) versus a perversa e burocratizada "partidocracia" portuguesa encerra em si um grande perigo potencial. Este folclore pseudo-anarquista, mas que mais não é do que populismo barato, pondo em causa a legitimidade e centralidade dos partidos enquanto representantes das sensibilidades políticas dos cidadãos, abre a porta a uma certa demagogia anti-democrática e à justificação de futuras medidas anti-democráticas que há muito se anunciam. Basta lembrarmo-nos de todo o discurso que tentava legitimar ideias como a dos círculos uninominais: também se falava nos malefícios da "partidocracia" e apresentava-se como panaceia milagrosa a "proximidade" eleitor/eleito. Passava-se por cima do facto de tal apelar à fulanização,e não à politização; de desviar as atenções para os indivíduos e não para as ideias constantes dos programas e para o debate. E passava-se por cima do facto de as candidaturas uninominais matarem o "pluralismo": os votos nos restantes candidatos/partidos seria completamente inutilizado. Seria a pura ditadura da maioria, sem contemplações, à maneira americana, favorecendo sempre o "centrão" (e a "estabilidade do centrão" leva necessariamente ao apagamento do debate ideológico e ao afunilamento de perspectivas). Por outro lado, mais do que uma repolitização e rejuvenescimento da cidadania dos portugueses, a consequência mais provável e óbvia da difusão e generalização deste imaginário será, pelo contrário, a despolitização da população, degradando e debilitando progressivamente a (necessária e benéfica) teorização e discussão ideológica. A fulanização da política (e daí até ao caciquismo e ao perigoso populismo das personalidades vai um passo) encontra solo fértil para se desenvolver no seio destas concepções anarco-parvas que, por muito rebeldes que se creiam os seus cultores sinceros, estimulam o conformismo, a falta de sentido crítico e de vontade de participação e transformação.
Francisco Louça, candidato do bloco de esquerda, obteve uma votação reduzida, tendo em conta os resultados obtidos pelo Bloco de esquerda nas últimas legislativas. Penso que a principal razão para isso acontecer foi a transferência de votos de algum do eleitorado bloquista para a candidatura de Manuel Alegre, como forma de "fazer pressão" sobre o governo Sócrates, para que ele entenda bem que há um grande descontentamento pelas políticas neo-liberais que segue. Apesar disso, não deixa de ser interessante que Louça ficou no "segundo lugar" dos candidatos mais beneficiado pela comunicação social: em segundo lugar no número de notícias e número de minutos nas televisões portuguesas. Por outro lado, como de costume, os órgãos de comunicação social insistiram em tentar criar, por sua própria iniciativa e interesse (e sem apoio, creio, em qualquer atitude de ambas as candidaturas), uma lógica de confrontação e "medição" de forças entre o candidato do Bloco de Esquerda e o candidato do PCP. Novamente, houve uma clara intenção de beneficiar o BE (e novamente as sondagens davam um "empate" entre os dois candidatos, quando o que sucedeu nas urnas foi uma significativa maior votação em Jerónimo de Sousa), não porque os media morram propriamente de amores pela esquerda festiva-hippie (só mesmo Pacheco Pereira é que é capaz de afirmar que a comunicação social em Portugal é dominada pelo "esquerdismo" - uma má imitação da estratégia Berlusconi), mas porque é importante para as forças que sustentam Barrosos e Sócrates, a nata da alta burguesia portuguesa, minar a única organização anti-capitalista, com um programa e uma perspectiva revolucionária e coerente. A esquerda inarticulada e de ideias vagas pode dar-lhes asco, mas é a esquerda consequente que eles temem.
Há que admitir, contudo, que Louça foi criticado e, muitas vezes, criticado por más razões. Chamam-lhe o "padre de esquerda", Pacheco Pereira critica-lhe o estilo "self-rigtheous", irritam-se com a sua "soberba aura de paladino e incorruptível". Na verdade, irrita a esta gentalha corrupta ou com poucas preocupações para lá da trivial prossecução dos seus interesses materiais mesquinhos que alguém denuncie de forma veemente, como "se fosse pecado", "delito moral hediondo", a corrupção, o compadrio e a insensibilidade social. Pois é, ele faz mesmo isso. E não creio que deva ser criticado por isso. E mais: creio que é de facto uma pessoa honesta (pese embora aquele lapso lamentável do plágio do Chossudovsky, bem como certos aproveitamentos demagógicos e populistas, táctica típica do Bloco), a quem repugna os fenómenos da corrupção, do clientelismo e da insensibilidade social. Quando defende uma causa, defende-a apaixonadamente, porque sente-a como moralmente fundamental. Assim deveriam ser todos os políticos. Se às vezes algumas pessoas de menores escrúpulos se sentem zurzidas (como os mercadores do templo) pela sua "pregação", paciência: regra geral ele está correcto e o que lhe repugna é efectivamente repugnante.
Achei-o sim, ridículo, quando disse que, se fosse presidente da República, não receberia dirigentes chineses, porque na China ocorreriam violações dos direitos humanos. Se esse é o critério, lamento informar Louça e os bloquistas de que seria impossível receber praticamente qualquer chefe de estado ou dirigente de qualquer país do mundo... Receberia os criminosos da administração Bush? Receberia estadistas da Alemanha onde ainda vigora a proibição dos "radicais" (Berufsverbot= proibição de profissão) que interdita a função pública aos comunistas e outros "radicais". Receberia dirigentes israelitas? Receberia dirigentes do regime turco, regime laico, mas de extrema repressão sobre a esquerda e sobre os curdos? Receberia dirigentes das repúblicas do Báltico, onde, nuns casos o partido comunista está proibido, noutros há centenas, ou mesmo milhares de presos políticos (ao mesmo tempo que os governos operam revisões da história monstruosas apresentando os nazis como "libertadores" da opressão "vermelha")e onde as minorias russófonas sofrem uma espécie de apartheid (claro que tudo isto não impede a UE de os aceitar como "bons europeus"...ao contrário da "criminosa" bielorússia que tem a ousadia de manter grande parte da economia estatizada e, horror dos horrores, preocupa-se em manter pleno emprego e regalias sociais como não existem nos seus vizinhos pseudo-democráticos)? Só referi estes regimes porque seriam "europeus" e "ocidentais" (mas, como se vê, têm muitas características anti-democráticas e neles ocorrem imensas violações dos direitos humanos). Violações dos direitos humanos ocorrem em todo o lado e só a selecção de alguns dos estados mostra bem a inconsequência de Louça e a ingenuidade parva que medra entre os bloquistas, completamente dominados ideologicamente pela burguesia, acreditando piamente em cada palavra dos media sempre que se trata de algum assunto que não conhecem bem. O Chomsky também é tendencialmente ingénuo e tinha certas imagens estereotipadas, mas com o tempo e com o acumular da experiência, sabe hoje desconfiar dos media: daí que, depois da sua visita a Cuba, tenha mudado de posição quanto à mesma. Afinal não é o inferno...afinal até encontrou lá "grassroot democratic institutions"...Quem diz isto é um "anarquista", não um "empernido estalinista demagogo"...É a falta de informação, aliada a uma ingenuidade exasperante que fazem do bloco uma organização, no mínimo, frustrante. Por outro lado, Louça, tem alguma formação política, com um enquadramento teórico marxista (o que dá uma boa base interpretativa do mundo e da realidade social) e gosta muito de dizer que o Bloco representa uma alternativa socialista. Porém, eu não estou tão seguro. Até acredito que o Louça possa ser um socialista (mesmo que seja ingénuo, como penso que é) e é sem dúvida uma pessoa com óptimas intenções e alguma boa formação teórica. Mas isso não se aplica à maioria dos militantes do Bloco, nem ao Bloco em si. Como disse Jerónimo de Sousa, não se percebe o que seja o bloco. É social-democrata, socialista? Nem têm propriamente um programa!!! Meia dúzia de bandeiras que têm mais a ver com a realização do liberalismo moral e político (não o económico, é certo) e que não coincidem com a divisão esquerda/direita actual (que se divide justamente no plano sócio-económico), como a despenalização das drogas e do aborto, não constituem (nem podem constituir) um programa e, para as realizar, não seria sequer necessário o bloco. Essa bandeiras, por mais que eu concorde com elas, não contendem com o cerne da sociedade actual, não representam qualquer mudança radical na sociedade. O que é preciso saber é por que tipo de organização sócio-económica batalhará concretamente o Bloco. De certa forma a sua indefinição é a sua "arma" para captar muitos "despolitizados" e esquerdistas politicamente inconscientes...mas também é a sua grande fragilidade. E eu não vejo que o Bloco vá corrigir este defeito, temo até que o aprofunde, conforme as novas gerações, com menos formação política, vão chegando aos postos de liderança. Por isso mesmo é que é tão acarinhado pelos media contra o PCP.
Uma palavra agora para Jerónimo de Sousa e para o resultado que obteve. Foi francamente positivo. Porém, conviria continuar nesta senda, apesar de todo o bloqueio informativo contra o PCP. Neste momento, todos os assalariados do país (e não só) deveriam dar um voto maciço no PCP nas próximas legislativas. Isso não acontecerá, obviamente. Porque alguns votarão no BE e, mais grave ainda, outros até votarão no PS. É altura de compreender que, tendo a URSS desaparecido do mapa, o PS está a tornar-se, é já até, pura e simplesmente um partido a soldo da alta burguesia. O movimento é de recuo, marcha-atrás a velocidade estonteante, rumo ao séc XIX, em que os partidos "de governo" são fotocópias uns dos outros, meros representantes dos interesses da burguesia. E o PS já demonstrou que até está interessado sobretudo numa franja pequena da burguesia: vejam-se as mensagens de júbilo quase incontido (sem falar nos lucros crescentes e fabulosos da banca) da Alta finança portuguesa e dos grandes interesses empresariais portugueses, vejam-se as entradas e saídas de dirigentes do PS, de grandes empresas privadas para o governo e deste novamente para os conselhos de administração de sociedades portuguesas e espanholas (com gordos interesses neste rectângulo à beira-mar plantado) e por certo se perceberá "quem manda" realmente no país neste momento. Infelizmente, a anestesia ministrada em doses cavalares de desinformação mediática, bem como certas peculiariedades sócio-económicas portuguesas (por exemplo, no norte do país), impediram e impedem que uma campanha bem conduzida e que as propostas sérias, honestas e acertadas do PCP sejam sufragadas por todos aqueles cujos interesses são defendidos pelo mesmo. É vergonhoso que Cavaco Silva tenha sido o candidato mais votado em todos os distritos do país, menos em Beja (onde foi Jerónimo de Sousa- avante Alentejo!). Em Setúbal, claro, Jerónimo, Louça, Alegre e, em menor medida, Soares, partilharam muitos votos enquanto que a direita tinha um candidato único. Mesmo assim, é vergonhoso o resultado para esta minha boa terra. Porém, pior ainda são os resultados verificados no Porto. Às vezes apetece-me separar-me do norte do país por causa destas coisas. O porto não é o país dos pequenos proprietários, não estamos a falar de leiria, do minho, trás-os-montes ou beiras profundas. Estamos a falar da segunda zona mais industrializada do País. Onde está a esquerda a sério??? É verdade, há muitos pequenos empresários ali (aqueles empresários aldrabões,que não pagam impostos, nem querem vir a pagar, que empregam poucas pessoas); há muita gente com uma certa ligação ainda à pequena propriedade rural (e com o sonho sempre presente de ser um "micro-empresário", um proprietário de uma lojeca, de uma empresa doméstica...) Ainda assim, creio que o Porto e arredores têm potencial para serem muito melhor politicamente. A única esperança de preservar o Estado social é votar no PCP, mesmo não se sendo comunista, neste contexto de regressão social acelerada.
Um último apontamento para a candidatura de Garcia Pereira. Foi ignorada ilegitimamente, com autêntico desprezo, apesar de ter apresentado até boas ideias. É inaceitável a forma como foi tratado pelos media. Que eu saiba conseguiu reunir os milhares de assinaturas necessários para ser candidato e foi como tal aceite pelo Tribunal Constitucional. O silenciamento deste candidato mostra quão parciais e falhos de sensibilidade democrática são os órgãos de comunicação social portugueses. Foi também venenosa a entrevista que lhe fizeram (creio que no DN)...resumiram-na apresentando Garcia Pereira como um (pseudo) defensor dos trabalhadores que na verdade não passaria de um advogado rico cobrando balúrdios à hora e que defende João Jardim. Este pseudo-resumo da entrevista (em que as próprias perguntas são tudo menos inocentes) é simplesmente asqueroso e distorce o conteúdo das declarações de Garcia Pereira. Sim, ele é rico. E daí? Para se ser comunista não é preciso ser-se pobre, monge franciscano, ou coisa que o valha. Quem julga que aqui há incoerência não passa de um idiota ou de um desses nojentos egoístas que julga que não é possível defender-se valores contrários aos seus próprios interesses materiais. Por outro lado, Garcia Pereira diz apenas que, se João Jardim ainda não foi derrotado, tal deve-se à própria inabilidade da esquerda. Na verdade, o PS da madeira deixou a "causa da autonomia da Madeira" para a direita e assim quem lucra é João Jardim. Garcia Pereira é favorável a mais autonomia da Madeira. Não sei se concorde ou discorde, mas é uma posição razoável e não implica uma qualquer defesa de João Jardim. Por outro lado, ele faz notar que falta de liberdade não existe apenas na madeira...mas também no continente(e conviria pensar bem nisto).
Garcia Pereira defende que, como presidente da república e ,dado o enquadramento constitucional, só faria sentido demitir João Jardim ou, igualmente, o governo actual, na medida em que incumpram o programa com o qual conquistaram o voto do eleitorado. Democracia (mesmo em democracia parlamentar burguesa) não pode traduzir-se em os cidadãos, de 4 em 4 anos, darem um cheque em branco aos partidos para que eles depois decidam se cumprem ou não o que prometeram. Nesse aspecto, portanto, o governo Sócrates está ferido de ilegitimidade e seria demitido por Garcia Pereira com mais justiça do que João Jardim (pode ser fascistóide e neo-liberal, mas pelo menos não o esconde). E aqui concordo com Garcia Pereira.
Finito.
A vitória de Cavaco Silva deu-se por uma mera diferença de 30 000 votos o que é francamente pouco. Atendendo a um resultado destes, dificilmente se poderá dizer, como é hábito nos media, que Cavaco Silva (ou qualquer outro candidato com vitória tão estreita) é o "presidente de todos os portugueses". Um tal resultado não deveria produzir nos cidadãos até agora mais incautos e desatententos um sentimento de salutar desconfiança perante os órgãos de comunicação social? Digo isto não apenas pela descarada promoção que foi feita "ao professor" (que eu saiba, Francisco Louça e Mário Soares tb são "senhores doutores", se é que isso se deva relevar, e deram aulas no ensino universitário também, pelo que é injustificável que não mereçam o mesmo tratamento) dando a entender, desde o início, que Cavaco Silva não era um candidato, mas pura e simplesmente um consensual "futuro presidente da república", algo como um herdeiro ao trono. Digo-o também e sobretudo porque esses mesmos oráculos "infalíveis " tentaram, com manifesta má-fé, transformar aos olhos dos nossos cidadãos politicamente ignorantes o seu método délfico (relembrando perigosamente um recauchutamento da tese da interpretação do "volkgeist" pelo führer-cavaco) numa tese "científica", apresentando sondagens que davam vantagens impressionantes (e inéditas em Portugal) a este "caudilho" promovido pelos media. Lembram-se dos mais de 60% atribuídos a alguns meses de distância? A folia destes senhores chegou ao ponto de apresentar quase 70% dos votos concentrados no candidato da direita! Dizer que isto se trata de meros "erros" técnicos , ou que efectivamente 20% dos eleitores mudaram de opinião desde essa data até ao dia das eleições, é simplesmente risível. Posto isto, que fará Cavaco (abstraindo das visitas de estado, dos discursos vazios e de circunstância)? Muito pouco. Já ficou bem claro que este D. Sebastião não vai querer sair do nevoeiro, pelo simples facto de que a "salvação de Portugal", tal como ele a entende, está a ser posta em prática pelo governo mais à direita que o país alguma vez teve. Daí que veremos um sereno reinado de passividade alegre (não obstante as suas tendências francamente autoritárias). O casamento com Sócrates possivelmente não será de felicidade eterna. É que no final do mandato do actual governo, alguns dirigentes do PS, conscientes da impopularidade que o governo granjeou, quererão lançar mão de medidas demagógicas e abrir os cordões à bolsa (note-se que, em certa medida, já o fizeram, com estes "complementos de reforma", ridiculamente baixos e quase inacessíveis atendendo aos obstáculos burocráticos), ao que, por convicção e oportunismo, Cavaco Silva poderá responder, tomando uma posição de intransigência, gerando uma crise de que beneficiará o seu partido nas eleições que se seguirão.
A votação significativamente baixa de Soares deve-se ao facto de ele ser o candidato "do governo". Não adianta escamotear esse facto. Alfredo Barroso, apoiante da candidatura de Soares, ainda a semanas das eleições, foi honesto, revelando que esta candidatura sofreria muito pelas políticas do governo. Disse até onde se sentiria (geográfica e socialmente falando) mais esse efeito: entre os funcionários públicos (e respectivos dependentes), e restantes assalariados, particularmente na zona da grande Lisboa. Essa mesma honestidade intelectual e política faltou aos dirigentes do PS após a hecatombe eleitoral. Segundo os inefáveis Sócrates, António Costa ou Jorge Coelho, os péssimos resultados, para a esquerda e para Mário Soaresm, não seriam consequência das políticas do actual governo, mas da acção esquerdista, divisionista e irresponsável, dos dois partidos à sua esquerda e da própria candidatura "rebelde" de Manuel Alegre. Pior cego é aquele que não quer ver e mais não digo. Verdade seja dita, penso que Sócrates e alguns dirigentes do PS terão preferido este resultado (de vitória de Cavaco Silva à primeira volta, mesmo com tão baixo resultado obtido pelo candidato do governo) a uma segunda volta insegura, confrontando Alegre e Cavaco. Por várias razões. Em primeiro lugar, Alegre representava (independentemente de ideologicamente não ser diferente ou muito diferente de Soares) o cartão amarelo ao governo de muitos descontentes. Pior, era o cartão amarelo sobretudo daqueles que haviam votado no PS aquando das eleições legislativas, ou seja, de eleitores do PS, muitos deles provavelmente militantes ou simpatizantes de longa data. Essa leitura confirma-se pelos 20% que Alegre obteve, num contexto em que Jerónimo de Sousa não só manteve, como aumentou o número de votos obtidos pela CDU nas eleições legislativas (pelo que os votos em alegre não são "votos úteis" dos eleitores CDU) e em que se verifica uma diminuição de votos no caso de Louça (obviamente, houve algum voto útil de bloquistas). Por essa razão, a manutenção de Alegre numa 2ª volta, era o prolongamento da contestação e do cartão amarelo ao governo.
Em segundo lugar, haveria o "risco" de Alegre ganhar. Alegre não seria um grande opositor, é certo. Não só por ser um ps, um dos "founding fathers" do PS, mas porque ideologicamente não está particularmente à esquerda e, dada a sua superficialidade, seria relativamente manipulável (Sampaio é o exemplo acabado da "boa pessoa" que é tão facilmente manipulável e que efectivamente foi tão manipulado que acabou por ser cúmplice nos maiores golpes da direita portuguesa). Contudo, é verdade que ele tomou posições "radicais" e um tanto assustadoras para o governo, já habituado à lassidão, passividade e tendência manipulável do Sampaio: perante a possibilidade de privatização nalguns sectores, Alegre disparou com o famoso "obviamente demito-o".
Cavaco Silva conviria muito mais ao governo Sócrates. Note-se, entretanto, que todos os dirigentes alternativos ou críticos no seio do próprio PS foram sendo "afastados": Soares pai neste desastre eleitoral, Alegre não ganhou, nem foi à segunda volta. Carrilho já fora enviado em missão suicida, na sua candidatura à câmara de Lisboa. A Soares filho também lhe deram um presente envenenado, ao propô-lo para a difícil conquista de Sintra, onde fracassou. Que conveniente!
Soares e Cavaco foram particularmente lacónicos quando se tratava de se pronunciarem sobre posições concretas que tomariam face a alguns problemas específicos. Curiosamente, esta atitude, que deveria ser censurada por mostrar falta de transparência e honestidade (ocultando da população eleitora as suas reais intenções) e , igualmente, fraca sensibilidade democrática, foi elogiada como demonstração da astúcia de dois animais políticos. Acusaram Alegre e os outros candidatos de incontinência verbal, de falta de "esperteza" política. Como se o que fosse necessário neste país fossem mais espertalhões...
Por outro lado, encontramos uma similitude entre os discursos de Cavaco e Alegre :
ambos insistiram na tese ridícula e perigosa de que a sua candidatura seria "independente" e "não-partidária" e de que estavam assim a abrir caminho a uma nova forma de política.
A tese é ridícula porque ninguém é "independente", mesmo que seja financeiramente independente de um particular partido. Todos recebem apoios, institucionais e pessoais, de determinadas áreas e representam determinados interesses concretos aos quais estão necessariamente ligado. Em última análise, ninguém é independente das suas próprias ideias e estas não nascem no vazio sociológico: são produto de um conjunto de influências e condicionantes. E Alegre quer fazer-nos de idiotas? Acaso não é ele um dos founding fathers do PS? E um militante comprometidíssimo do mesmo desde há mais de 30 anos?
Mas se Alegre podia invocar uma relativa independência das estruturas partidárias, Cavaco nem isso: A sua candidatura contou desde o primeiro momento (aliás, em rigor, desde muito antes do "1º momento, se considerarmos este o momento da formalização da candidatura) com o apoio expresso e incondicional dos dois partidos da direita. Por outro lado, também nunca foi independente dos interesses da banca, dos grandes empresários e dos seus muitos Goebbels economistas e jornalistas.
A tese-poesia de Manuel Alegre da "viçosa e regeneradora sociedade civil" (que ele representaria) versus a perversa e burocratizada "partidocracia" portuguesa encerra em si um grande perigo potencial. Este folclore pseudo-anarquista, mas que mais não é do que populismo barato, pondo em causa a legitimidade e centralidade dos partidos enquanto representantes das sensibilidades políticas dos cidadãos, abre a porta a uma certa demagogia anti-democrática e à justificação de futuras medidas anti-democráticas que há muito se anunciam. Basta lembrarmo-nos de todo o discurso que tentava legitimar ideias como a dos círculos uninominais: também se falava nos malefícios da "partidocracia" e apresentava-se como panaceia milagrosa a "proximidade" eleitor/eleito. Passava-se por cima do facto de tal apelar à fulanização,e não à politização; de desviar as atenções para os indivíduos e não para as ideias constantes dos programas e para o debate. E passava-se por cima do facto de as candidaturas uninominais matarem o "pluralismo": os votos nos restantes candidatos/partidos seria completamente inutilizado. Seria a pura ditadura da maioria, sem contemplações, à maneira americana, favorecendo sempre o "centrão" (e a "estabilidade do centrão" leva necessariamente ao apagamento do debate ideológico e ao afunilamento de perspectivas). Por outro lado, mais do que uma repolitização e rejuvenescimento da cidadania dos portugueses, a consequência mais provável e óbvia da difusão e generalização deste imaginário será, pelo contrário, a despolitização da população, degradando e debilitando progressivamente a (necessária e benéfica) teorização e discussão ideológica. A fulanização da política (e daí até ao caciquismo e ao perigoso populismo das personalidades vai um passo) encontra solo fértil para se desenvolver no seio destas concepções anarco-parvas que, por muito rebeldes que se creiam os seus cultores sinceros, estimulam o conformismo, a falta de sentido crítico e de vontade de participação e transformação.
Francisco Louça, candidato do bloco de esquerda, obteve uma votação reduzida, tendo em conta os resultados obtidos pelo Bloco de esquerda nas últimas legislativas. Penso que a principal razão para isso acontecer foi a transferência de votos de algum do eleitorado bloquista para a candidatura de Manuel Alegre, como forma de "fazer pressão" sobre o governo Sócrates, para que ele entenda bem que há um grande descontentamento pelas políticas neo-liberais que segue. Apesar disso, não deixa de ser interessante que Louça ficou no "segundo lugar" dos candidatos mais beneficiado pela comunicação social: em segundo lugar no número de notícias e número de minutos nas televisões portuguesas. Por outro lado, como de costume, os órgãos de comunicação social insistiram em tentar criar, por sua própria iniciativa e interesse (e sem apoio, creio, em qualquer atitude de ambas as candidaturas), uma lógica de confrontação e "medição" de forças entre o candidato do Bloco de Esquerda e o candidato do PCP. Novamente, houve uma clara intenção de beneficiar o BE (e novamente as sondagens davam um "empate" entre os dois candidatos, quando o que sucedeu nas urnas foi uma significativa maior votação em Jerónimo de Sousa), não porque os media morram propriamente de amores pela esquerda festiva-hippie (só mesmo Pacheco Pereira é que é capaz de afirmar que a comunicação social em Portugal é dominada pelo "esquerdismo" - uma má imitação da estratégia Berlusconi), mas porque é importante para as forças que sustentam Barrosos e Sócrates, a nata da alta burguesia portuguesa, minar a única organização anti-capitalista, com um programa e uma perspectiva revolucionária e coerente. A esquerda inarticulada e de ideias vagas pode dar-lhes asco, mas é a esquerda consequente que eles temem.
Há que admitir, contudo, que Louça foi criticado e, muitas vezes, criticado por más razões. Chamam-lhe o "padre de esquerda", Pacheco Pereira critica-lhe o estilo "self-rigtheous", irritam-se com a sua "soberba aura de paladino e incorruptível". Na verdade, irrita a esta gentalha corrupta ou com poucas preocupações para lá da trivial prossecução dos seus interesses materiais mesquinhos que alguém denuncie de forma veemente, como "se fosse pecado", "delito moral hediondo", a corrupção, o compadrio e a insensibilidade social. Pois é, ele faz mesmo isso. E não creio que deva ser criticado por isso. E mais: creio que é de facto uma pessoa honesta (pese embora aquele lapso lamentável do plágio do Chossudovsky, bem como certos aproveitamentos demagógicos e populistas, táctica típica do Bloco), a quem repugna os fenómenos da corrupção, do clientelismo e da insensibilidade social. Quando defende uma causa, defende-a apaixonadamente, porque sente-a como moralmente fundamental. Assim deveriam ser todos os políticos. Se às vezes algumas pessoas de menores escrúpulos se sentem zurzidas (como os mercadores do templo) pela sua "pregação", paciência: regra geral ele está correcto e o que lhe repugna é efectivamente repugnante.
Achei-o sim, ridículo, quando disse que, se fosse presidente da República, não receberia dirigentes chineses, porque na China ocorreriam violações dos direitos humanos. Se esse é o critério, lamento informar Louça e os bloquistas de que seria impossível receber praticamente qualquer chefe de estado ou dirigente de qualquer país do mundo... Receberia os criminosos da administração Bush? Receberia estadistas da Alemanha onde ainda vigora a proibição dos "radicais" (Berufsverbot= proibição de profissão) que interdita a função pública aos comunistas e outros "radicais". Receberia dirigentes israelitas? Receberia dirigentes do regime turco, regime laico, mas de extrema repressão sobre a esquerda e sobre os curdos? Receberia dirigentes das repúblicas do Báltico, onde, nuns casos o partido comunista está proibido, noutros há centenas, ou mesmo milhares de presos políticos (ao mesmo tempo que os governos operam revisões da história monstruosas apresentando os nazis como "libertadores" da opressão "vermelha")e onde as minorias russófonas sofrem uma espécie de apartheid (claro que tudo isto não impede a UE de os aceitar como "bons europeus"...ao contrário da "criminosa" bielorússia que tem a ousadia de manter grande parte da economia estatizada e, horror dos horrores, preocupa-se em manter pleno emprego e regalias sociais como não existem nos seus vizinhos pseudo-democráticos)? Só referi estes regimes porque seriam "europeus" e "ocidentais" (mas, como se vê, têm muitas características anti-democráticas e neles ocorrem imensas violações dos direitos humanos). Violações dos direitos humanos ocorrem em todo o lado e só a selecção de alguns dos estados mostra bem a inconsequência de Louça e a ingenuidade parva que medra entre os bloquistas, completamente dominados ideologicamente pela burguesia, acreditando piamente em cada palavra dos media sempre que se trata de algum assunto que não conhecem bem. O Chomsky também é tendencialmente ingénuo e tinha certas imagens estereotipadas, mas com o tempo e com o acumular da experiência, sabe hoje desconfiar dos media: daí que, depois da sua visita a Cuba, tenha mudado de posição quanto à mesma. Afinal não é o inferno...afinal até encontrou lá "grassroot democratic institutions"...Quem diz isto é um "anarquista", não um "empernido estalinista demagogo"...É a falta de informação, aliada a uma ingenuidade exasperante que fazem do bloco uma organização, no mínimo, frustrante. Por outro lado, Louça, tem alguma formação política, com um enquadramento teórico marxista (o que dá uma boa base interpretativa do mundo e da realidade social) e gosta muito de dizer que o Bloco representa uma alternativa socialista. Porém, eu não estou tão seguro. Até acredito que o Louça possa ser um socialista (mesmo que seja ingénuo, como penso que é) e é sem dúvida uma pessoa com óptimas intenções e alguma boa formação teórica. Mas isso não se aplica à maioria dos militantes do Bloco, nem ao Bloco em si. Como disse Jerónimo de Sousa, não se percebe o que seja o bloco. É social-democrata, socialista? Nem têm propriamente um programa!!! Meia dúzia de bandeiras que têm mais a ver com a realização do liberalismo moral e político (não o económico, é certo) e que não coincidem com a divisão esquerda/direita actual (que se divide justamente no plano sócio-económico), como a despenalização das drogas e do aborto, não constituem (nem podem constituir) um programa e, para as realizar, não seria sequer necessário o bloco. Essa bandeiras, por mais que eu concorde com elas, não contendem com o cerne da sociedade actual, não representam qualquer mudança radical na sociedade. O que é preciso saber é por que tipo de organização sócio-económica batalhará concretamente o Bloco. De certa forma a sua indefinição é a sua "arma" para captar muitos "despolitizados" e esquerdistas politicamente inconscientes...mas também é a sua grande fragilidade. E eu não vejo que o Bloco vá corrigir este defeito, temo até que o aprofunde, conforme as novas gerações, com menos formação política, vão chegando aos postos de liderança. Por isso mesmo é que é tão acarinhado pelos media contra o PCP.
Uma palavra agora para Jerónimo de Sousa e para o resultado que obteve. Foi francamente positivo. Porém, conviria continuar nesta senda, apesar de todo o bloqueio informativo contra o PCP. Neste momento, todos os assalariados do país (e não só) deveriam dar um voto maciço no PCP nas próximas legislativas. Isso não acontecerá, obviamente. Porque alguns votarão no BE e, mais grave ainda, outros até votarão no PS. É altura de compreender que, tendo a URSS desaparecido do mapa, o PS está a tornar-se, é já até, pura e simplesmente um partido a soldo da alta burguesia. O movimento é de recuo, marcha-atrás a velocidade estonteante, rumo ao séc XIX, em que os partidos "de governo" são fotocópias uns dos outros, meros representantes dos interesses da burguesia. E o PS já demonstrou que até está interessado sobretudo numa franja pequena da burguesia: vejam-se as mensagens de júbilo quase incontido (sem falar nos lucros crescentes e fabulosos da banca) da Alta finança portuguesa e dos grandes interesses empresariais portugueses, vejam-se as entradas e saídas de dirigentes do PS, de grandes empresas privadas para o governo e deste novamente para os conselhos de administração de sociedades portuguesas e espanholas (com gordos interesses neste rectângulo à beira-mar plantado) e por certo se perceberá "quem manda" realmente no país neste momento. Infelizmente, a anestesia ministrada em doses cavalares de desinformação mediática, bem como certas peculiariedades sócio-económicas portuguesas (por exemplo, no norte do país), impediram e impedem que uma campanha bem conduzida e que as propostas sérias, honestas e acertadas do PCP sejam sufragadas por todos aqueles cujos interesses são defendidos pelo mesmo. É vergonhoso que Cavaco Silva tenha sido o candidato mais votado em todos os distritos do país, menos em Beja (onde foi Jerónimo de Sousa- avante Alentejo!). Em Setúbal, claro, Jerónimo, Louça, Alegre e, em menor medida, Soares, partilharam muitos votos enquanto que a direita tinha um candidato único. Mesmo assim, é vergonhoso o resultado para esta minha boa terra. Porém, pior ainda são os resultados verificados no Porto. Às vezes apetece-me separar-me do norte do país por causa destas coisas. O porto não é o país dos pequenos proprietários, não estamos a falar de leiria, do minho, trás-os-montes ou beiras profundas. Estamos a falar da segunda zona mais industrializada do País. Onde está a esquerda a sério??? É verdade, há muitos pequenos empresários ali (aqueles empresários aldrabões,que não pagam impostos, nem querem vir a pagar, que empregam poucas pessoas); há muita gente com uma certa ligação ainda à pequena propriedade rural (e com o sonho sempre presente de ser um "micro-empresário", um proprietário de uma lojeca, de uma empresa doméstica...) Ainda assim, creio que o Porto e arredores têm potencial para serem muito melhor politicamente. A única esperança de preservar o Estado social é votar no PCP, mesmo não se sendo comunista, neste contexto de regressão social acelerada.
Um último apontamento para a candidatura de Garcia Pereira. Foi ignorada ilegitimamente, com autêntico desprezo, apesar de ter apresentado até boas ideias. É inaceitável a forma como foi tratado pelos media. Que eu saiba conseguiu reunir os milhares de assinaturas necessários para ser candidato e foi como tal aceite pelo Tribunal Constitucional. O silenciamento deste candidato mostra quão parciais e falhos de sensibilidade democrática são os órgãos de comunicação social portugueses. Foi também venenosa a entrevista que lhe fizeram (creio que no DN)...resumiram-na apresentando Garcia Pereira como um (pseudo) defensor dos trabalhadores que na verdade não passaria de um advogado rico cobrando balúrdios à hora e que defende João Jardim. Este pseudo-resumo da entrevista (em que as próprias perguntas são tudo menos inocentes) é simplesmente asqueroso e distorce o conteúdo das declarações de Garcia Pereira. Sim, ele é rico. E daí? Para se ser comunista não é preciso ser-se pobre, monge franciscano, ou coisa que o valha. Quem julga que aqui há incoerência não passa de um idiota ou de um desses nojentos egoístas que julga que não é possível defender-se valores contrários aos seus próprios interesses materiais. Por outro lado, Garcia Pereira diz apenas que, se João Jardim ainda não foi derrotado, tal deve-se à própria inabilidade da esquerda. Na verdade, o PS da madeira deixou a "causa da autonomia da Madeira" para a direita e assim quem lucra é João Jardim. Garcia Pereira é favorável a mais autonomia da Madeira. Não sei se concorde ou discorde, mas é uma posição razoável e não implica uma qualquer defesa de João Jardim. Por outro lado, ele faz notar que falta de liberdade não existe apenas na madeira...mas também no continente(e conviria pensar bem nisto).
Garcia Pereira defende que, como presidente da república e ,dado o enquadramento constitucional, só faria sentido demitir João Jardim ou, igualmente, o governo actual, na medida em que incumpram o programa com o qual conquistaram o voto do eleitorado. Democracia (mesmo em democracia parlamentar burguesa) não pode traduzir-se em os cidadãos, de 4 em 4 anos, darem um cheque em branco aos partidos para que eles depois decidam se cumprem ou não o que prometeram. Nesse aspecto, portanto, o governo Sócrates está ferido de ilegitimidade e seria demitido por Garcia Pereira com mais justiça do que João Jardim (pode ser fascistóide e neo-liberal, mas pelo menos não o esconde). E aqui concordo com Garcia Pereira.
Finito.

5 Comments:
Gostei do teu blog. Achei-o interessante. No geral, gostei bastante deste teu post mas acho que tens uma leitura um pouco ingénua relativamente ao Bloco. De resto fazes uma análise muito precisa e arguta sobre o panorama político português.
Um abraço,
João
P.S. passa pelo blog Kontratempos (http://kontratempos.blogspot.com/). É um blog de um colega meu da faculdade muito próximo do PS e com o qual tenho tido algumas discussões acesas. Aproveita e junta-te à festa! Assim já somos dois a desancar nessa intelectualada de treta vendida por um prato de lentilhas.
Apesar de ñ ler todo o teu esboço sobre as Presidenciais, gostei do k li. Senti-me revoltado kando o Cavaco, Presidente de "alguns" portugueses, ganhou estas eleições, principalmente da maneira corrupta e hipócrita k fez.
Em meu ver o unico partido k fez algo, para que houve-se 2º volta foi o PC. Pois, kêm andou na ruas, kêm andou nas ruas para consciencializar as pessoas do perigo k o candidato da Direita representava. Pois bem, eu ñ vi + nenhum partido a fazer isso.
É revoltante...
Em fim, continua este bom trabalho!
Pois é...O PS foi perfeitamente tíbio e ambíguo na sua posição...Tentaram culpar "antecipadamente" as candidaturas à sua esquerda pela vitória eventual de cavaco...Queriam assim não desonerar-se das suas exclusivas culpas pela desgraça eleitoral que sofreram em virtude da política desatrosa que praticaram. Enquanto ao mesmo tempo nada fizeram para evitar a vitória do Cavaco...até porque lhes convinha e convém o Cavaco.
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