Adeus ao índio
Este texto de um chefe Índio é muito comovente. Li-o há já bastante tempo num livro da Assírio e Alvim chamado "sopro das vozes" que ofereci ao meu irmão. Tudo isto que vou dizer serão clichés, bem sei. Ainda assim creio que têm uma grande dose de verdade. Para lá de uma certa cegueira romântica a propósito deste tema, não há como não lamentar o autêntico genocídio não apenas físico, mas sobretudo cultural, praticado sobre os povos indígenas da América. Em nome de um pretenso progresso (material talvez, mas nunca necessariamente moral), foram destruídos modos de vida que preservavam muito daquilo que infelizmente não soubemos preservar nas sociedades hodiernas e que, irremediavelmente creio, perdemos para todo o sempre. Falar em índios é não falar em nada, sei-o bem. Cada tribo era uma realidade diferente. Mas, regra geral, é fácil de reconhecer que na sociedade industrial falta-nos muito daquilo que importa, muito daquilo que é humano, humaníssimo e que eles tinham em abundância. Todo o nosso afã produtivo (inútil) é bem mais irracional do que a estagnação dos "subdesenvolvidos". Nós vivemos para produzir, eles produzem para viver. Os nossos workaholics estão tão doentes que quase que deixaram de ser humanos. Nós "corremos" para tudo. Dizemos que é para haver mais bens e para todos estarem mais satisfeitos. Mas depois de produzido muito mais do que é necessário para satisfazer as necessidades, deixamos pessoas morrer à fome no altar do Moloch-mercado. Algumas escassas pessoas acumulam tantas riquezas que podem obter tudo o que é humanamente possível, mas (ou por causa disso) são incapazes de se sentirem satisfeitas. O índio vive em harmonia com a natureza. Nós só pensamos em transformá-la em mais recursos, em mais mercadorias. Transformámos o próprio trabalho
humano numa mercadoria e, em última análise, transformámos o ser humano numa mercadoria, num objecto ao serviço dos desígnios da Santa Economia (entenda-se, economia de mercado). Os sacramentos desta igreja chamam-se eficiência, eficácia, produtividade e competividade. E quem questionar para que serve tudo isto, responder-nos-ão invariavelmente que quem questiona é um primitivo, um herético que não percebe que o Deus mercado tem misteriosos desígnios que nós não podemos nem devemos tentar sondar. Tal tarefa está reservada aos economistas, sacerdotes do culto. O índio não entende as nossas "racionais" desigualdades, não entende uma sociedade que produz tanto e ainda assim cultiva o egoísmo fratricida mais atroz, não entende uma sociedade dividida entre subordinados e explorados de um lado e superiores e exploradores do outro. Não entende como é que podemos ter outro objectivo, outro fim, nas nossas acções que não o próprio ser humano (e não estou a dizer que os índios tenham lido a metafísica dos costumes do Kant). Quando, como o índio, não conseguirmos entender todas estas coisas, teremos conseguido atingir o progresso moral que não acompanhou (antes foi trucidado por) esta correria infernal do progresso produtivo e tecnológico. Eu sou progressista. Não sou um reaccionário, nem um apologista romântico de uma qualquer pretensa "idade de ouro" dos antigos. Mas há que pensar que tipo de progresso é que queremos. Ouçamos este velho homem que, não obstante a sua ingenuidade, tem uma clara e dolorosa percepção do que espera o seu povo e terra.
Cheio de Golpes
Corvo
O CHEFE CHEIO-DE-GOLPES (CORVO) FAZ UM DISCURSO DE DESPEDIDA EM 1909 NO CAMPO DAS ASSEMBLEIAS EM LITTLE BIGHORN, MONTANA
Este chão em que estamos é um chão sagrado. Foi feito com o pó e o sangue dos nossos antepassados. Foi para estas planícies que o Grande Pai Branco de Washington enviou os seus soldados armados com facas longas e espingardas para matar os índios.
Muitos deles dormem nessa colina, ali adiante, onde Pahaska – O Chefe branco de Cabelos Compridos (General Custer) – tão bravamente combateu e morreu. Mais alguns sóis e nós já não estaremos aqui e o nosso pó e os nossos ossos misturar-se-ão com estas pradarias. Como se fosse numa vião, vejo morrer a centelha das nossas assembleias de fogo até que só restem cinzas frias e brancas. Não vejo mais as espirais de fumo saindo pelo topo das nossas tendas. Já não ouço mais o canto das mulheres enquanto preparam a comida. Os antílopes desapareceram, os lodaçais do búfalo estão vazios. Só se ouve o uivo do Coiote. A magia do homem branco é mais forte do que a nossa, o seu cavalo de ferro corre sobre a pista do búfalo. Fala connosco através do seu “espírito que sussura” (o telefone). Somos como pássaros de asa quebrada. Dentro de mim sinto o coração frio. Os meus olhos estão a enfraquecer – Estou velho…
humano numa mercadoria e, em última análise, transformámos o ser humano numa mercadoria, num objecto ao serviço dos desígnios da Santa Economia (entenda-se, economia de mercado). Os sacramentos desta igreja chamam-se eficiência, eficácia, produtividade e competividade. E quem questionar para que serve tudo isto, responder-nos-ão invariavelmente que quem questiona é um primitivo, um herético que não percebe que o Deus mercado tem misteriosos desígnios que nós não podemos nem devemos tentar sondar. Tal tarefa está reservada aos economistas, sacerdotes do culto. O índio não entende as nossas "racionais" desigualdades, não entende uma sociedade que produz tanto e ainda assim cultiva o egoísmo fratricida mais atroz, não entende uma sociedade dividida entre subordinados e explorados de um lado e superiores e exploradores do outro. Não entende como é que podemos ter outro objectivo, outro fim, nas nossas acções que não o próprio ser humano (e não estou a dizer que os índios tenham lido a metafísica dos costumes do Kant). Quando, como o índio, não conseguirmos entender todas estas coisas, teremos conseguido atingir o progresso moral que não acompanhou (antes foi trucidado por) esta correria infernal do progresso produtivo e tecnológico. Eu sou progressista. Não sou um reaccionário, nem um apologista romântico de uma qualquer pretensa "idade de ouro" dos antigos. Mas há que pensar que tipo de progresso é que queremos. Ouçamos este velho homem que, não obstante a sua ingenuidade, tem uma clara e dolorosa percepção do que espera o seu povo e terra.
Cheio de Golpes
Corvo
O CHEFE CHEIO-DE-GOLPES (CORVO) FAZ UM DISCURSO DE DESPEDIDA EM 1909 NO CAMPO DAS ASSEMBLEIAS EM LITTLE BIGHORN, MONTANA
Este chão em que estamos é um chão sagrado. Foi feito com o pó e o sangue dos nossos antepassados. Foi para estas planícies que o Grande Pai Branco de Washington enviou os seus soldados armados com facas longas e espingardas para matar os índios.
Muitos deles dormem nessa colina, ali adiante, onde Pahaska – O Chefe branco de Cabelos Compridos (General Custer) – tão bravamente combateu e morreu. Mais alguns sóis e nós já não estaremos aqui e o nosso pó e os nossos ossos misturar-se-ão com estas pradarias. Como se fosse numa vião, vejo morrer a centelha das nossas assembleias de fogo até que só restem cinzas frias e brancas. Não vejo mais as espirais de fumo saindo pelo topo das nossas tendas. Já não ouço mais o canto das mulheres enquanto preparam a comida. Os antílopes desapareceram, os lodaçais do búfalo estão vazios. Só se ouve o uivo do Coiote. A magia do homem branco é mais forte do que a nossa, o seu cavalo de ferro corre sobre a pista do búfalo. Fala connosco através do seu “espírito que sussura” (o telefone). Somos como pássaros de asa quebrada. Dentro de mim sinto o coração frio. Os meus olhos estão a enfraquecer – Estou velho…

2 Comments:
eu já tive esse livro nas mãos...pus-me a relacionar essas palavras do índio com o escritor americano thomas wolfe (não o thom wolfe) que descrevia uma outra américa, aquela que não vem nos atlas, feita não pelos homens de poder, mas pelos milhões de almas solitárias que habitavam aquela terra.
hi, cativodacativa.blogspot.com!
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