Wednesday, January 18, 2006

Democracia, tempos de antena, ditadura informativa de classe e esquerda inócua

Para que depois não digam que se trata de vitimização e de um mito, a verdade é que os factos objectivos demonstram quão discriminada é a candidatura de Jerónimo de Sousa (veja-se artigo "tempo de antena" no blog Mais Livre, aqui colocado). Para um verdadeiro democrata, o conceito de democracia inclui (ou deve incluir) a igualdade e liberdade de acesso à informação e à propaganda.Para qualquer cidadão consciente fica patente que a acção repressiva do estado não consegue ser mais perniciosa e mais deformadora dessa isocracia informativa pretendida do que a acção dos media sob dominação de grandes empresas. Quando meios desiguais de veiculação de informação e propaganda são propriedade de uns poucos, e sempre os mesmos (em termos das classes sociais a que pertencem e que representam), há uma ditadura informativa de classe. Mas, sendo informativa, é uma ditadura de palavras, de formação de mentes e de percepções e, em última análise, da acção (subsequente e consequente) das pessoas. O que nós podemos fazer ou deixar de fazer, a nossa capacidade para a cidadania, está intimamente dependente daquilo que nos é facultado ver. Só consigo locomover-me com base nos dados (e na fidedignidade dos mesmos) que os meus sentidos me transmitem. No domínio da acção política, da formação político ideológica, da capacidade para a cidadania, estamos sujeitos a uma recepção profundamente truncada dos dados e às limitações que isso acarreta. É como se ficassemos com o campo de visão limitado,com palas sobre os olhos, como se faz aos cavalos quando usados para puxar carruagens. A informação que nos chega é a que outros nos fazem chegar. E o filtro que colocam deixa de lado muito informação, sonega-nos imensa informação. Pode suceder que propositadamente (isto é, de má fé) se sonegue informação favorável aos defensores de políticas contrárias aos interesses dos proprietários dos meios de comunicação. Pode também suceder que essa "filtragem" seja feita inocentemente. Isto é, ninguém parte para os dados sem "pré-conceitos" sobre a realidade. É com base numa série de conceitos pré-existentes que vamos ordenar a informação que recebemos, que vamos encontrar linhas condutoras na avalanche de dados que recebemos. É inevitável e necessário tal processo de reordenação dos dados segundo padrões e critérios explicativos da realidade. Naturalmente, nesse processo, alguns dados surgem enfatizados, outros menosprezados; uns são praticamente ignorados, outros afiguram-se como determinantes e por isso concede-se-lhes exacerbada atenção. Há uma hierarquização dos dados, que implica omissões, negligências, aprofundamentos, sobre e subvalorizações, etc (estas são ideologicamente determinadas, mas pode dizer-se que são "inocentes", porque a pessoa que assim opera pretende efectivamente "fazer um esforço de objectividade dentro da sua inevitável subjectividade"). Essa "filtragem" extremamente redutora poderia ser combatida, se houvesse um acesso igual e livre à produção (e não apenas à recepção, num sentido estrito) de informação (que seria sempre "biased", naturalmente, como dizem os anglo-saxónicos). Num regime capitalista tal é impossível, pois também o poder informativo é objecto de propriedade e só fala quem pode, isto é, quem pertença à classe dominante, quem tenha o suficiente poder económico e social para se impor. A Burguesia comanda as operações, sempre, necessariamente. A grande tarefa "revolucionária" é tentar romper com esta ditadura informativo-ideológica, tal como os revolucionários burgueses franceses tentaram fazer (no que tiveram relativo sucesso) com o poder ideológico e informativo das classes reaccionárias. Foi, com uma consciência de classe mais ou menos madura e perfeita, que se procedeu à laicização do estado e ataque ao poder da igreja e do clero, meio de informação e propaganda quase único nas zonas rurais francesas (era pelo padre, aos domingos, que as pessoas sabiam das notícias extra-aldeia). Foi por isso que instituíram as eleições no próprio clero, retirando às reaccionárias cúpulas clericais o controlo (por via das nomeações) destes autênticos órgãos de informação individuais, aprofundando por este meio a democracia informativa (e o poder de reprodução das estruturas ideológicas necessárias ao novo regime sócio-económico, as estruturas ideológicas da burguesia ascendente). Foi por isso que sentiram a necessidade de desenvolver os meios então alternativos de comunicação e propagação ideológica: os jornais e revistas. Há mecanismos no capitalismo que poderiam servir de parco paliativo à ditadura de classe informativa da Burguesia. Mas neste momento a ditadura informativa de classe está em processo de contínuo aprofundamento... e não de abrandamento.
O combate pela informação e pela democracia informativa impõe-se como necessidade primária e obrigação política e moral da esquerda (isto é: da verdadeira esquerda, a esquerda progressista, defensora da democracia alargada e das tranformações sócio-económicas necessárias para atingir a mesma). Há que dar voz aos que não têm voz.
Hasta la victoria, siempre!!

http://maislivre.blogspot.com/

Sobre as sondagens:

http://doc-log.blogspot.com/2006/01/o-mistrio-das-sondagens.html

http://maislivre.blogspot.com/2006/01/traduo-de-artigo-sobre-as-sondagens.html


Relembro que, sistematicamente, em todas as eleições, em 30 anos de democracia, todas as sondagens deram sempre resultados inferiores aos que realmente se vieram a registar nas eleições para o PCP e coligações em que esteve integrado. Não se espera alteração da mesma tendência nestas eleições presidenciais

Curiosamente, Louça (como é típico do BE) tem sido bastante beneficiado pela comunicação social de forma pouco inocente. Não é de espantar , por isso, que ele se recuse a comentar e criticar a comunicação social (não obstante Cavaco Silva estar a ser levado ao colo). É por essas e por outras que o Bloco vai mostrando a sua natureza. A burguesia raramente se engana quanto aqueles que são os seus reais inimigos. Na guerra da informação, "apaga" tanto quanto pode os que julga realmente "perigosos" para o "status quo" e promove uma imagem tanto positiva quanto possível de uma esquerda muito espalhafatosa, bem falante, mas perfeitamente inócua, dominável e dominada. Não porque morra de amores pelo Bloco, é certo, mas porque promovendo este, tenta minar a força social e política dos que mais os apoquentam, dos que lhes podem montar uma verdadeira resistência, apontado com coerência e radicalismo, uma via alternativa, uma via de transformação profunda das infra e superestruras sociais. E para que fique claro: nutro simpatia e respeito pelo Francisco Louça (independentemente de críticas que lhe possa fazer) e por muitas pessoas no Bloco de Esquerda. Não os elejo como inimigos, nem primários, nem secundários,sabendo bem distinguir quem me é próximo (em termos ideológicos), ao contrário do que faz muita gente no PCP relativamente ao Bloco, e do Bloco relativamente ao PCP.

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